Sol, vento e água renovam a matriz energética dos data centers da América Latina

Tiago Khouri • setembro 07, 2016

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Sol, vento e água renovam a matriz energética dos data centers da América Latina

Apesar da crise, os investimentos em data centers e em telecomunicações continuam a crescer na América Latina.  Este crescimento resulta da demanda por tráfego de dados e da migração de aplicações para a nuvem.  Neste contexto, a adoção de energias renováveis ajuda as empresas a minimizar seu impacto ambiental e otimizar suas operações, reduzindo seu consumo energético, seus custos operacionais e protegendo suas utilidades em um momento de volatilidade nas vendas.

Globalmente, 2015 foi um ano no qual os investimentos em energia sustentável alcançaram um recorde de U$ 329 Bilhões segundo dados da Bloomberg New Energy Finance. Na indústria de tecnologia, diversas empresas renomadas implementaram fontes energia renovável em suas operações. Um dos casos mais representativos é da gigante mundial Google, que foi pioneira em realizar investimentos milionários na construção de data centers ecológicos e eficientes. Em Taiwan, a empresa apostou na inclusão de um sistema de refrigeração com água do mar e água reciclada, como método de armazenagem de energia térmica.

Por sua vez, a Microsoft foi a primeira empresa a submergir um data center no oceano, a 10 metros de profundidade e a 1 Km de distancia da costa da Califórnia, nos Estados Unidos. Esta iniciativa busca reduzir de forma eficiente o superaquecimento dos equipamentos, uma vez que a água refrigera o data center e aumenta e produtividade dos servidores ao reduzir o consumo de energia.

A América Latina também teve um ano brilhante: em 2015, aumentou sua capacidade de geração de energia solar em 1,4GW, ou 166%.  Em termos de capacidade de produção de energia eólica, a região cresceu significativamente, com um aumento de 4,5GW ou 42%. A América Latina tem muito potencial e condições climáticas favoráveis para o desenvolvimento de energias renováveis devido à proximidade com zonas hídricas e aos altos índices de radiação solar, fazendo com que alguns países da região sejam uma opção natural para retornos de investimento muito atrativos. Segundo o estudo Climascopio, realizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento em 2014, 6 países da região ficaram entre 12 primeiros colocados das 55 nações emergentes mais atrativas para investimentos em energias renováveis.

É interessante observar que algumas vezes países “pequenos” podem assumir a liderança em determinadas tecnologias. O Chile, por exemplo, recebe investimentos massivos na área de energia solar. Atualmente, está sendo construída uma planta fotovoltaica no Deserto de Atacama, chamada “El Romero”, um projeto ambicioso previsto para entrar em operação em 2017 e que, quando pronto, será o maior da América Latina, com uma capacidade de geração de 493 GWh, o suficiente para abastecer 240,000 residências. Por outro lado, a Costa Rica produz 98% de sua energia através de fontes renováveis e pretende, à médio ou longo prazo, converter-se na capital de data centers verdes do continente.

Se o clima da América Latina é tão favorável, porque vemos tão poucos data centers e redes de telecomunicações que usam energia renovável?

Parte do desafio está relacionado as regras e incentivos para o desenvolvimento e exploração de uma matriz energética renovável. Na América Latina, o debate sobre a integração da política energética e climática está em processo de consolidação.  Por exemplo, na Colômbia estão sendo aprovados incentivos tributários para o uso deste tipo de fontes de energia. Entre as medidas, se destaca a isenção de tributos aduaneiros e a isenção de impostos sobre valor agregado dos bens associados à instalação.  No Brasil, em 2015 foi aprovada a regulamentação de micro-geração a qual permite que a energia solar excedente que não tenha sido utilizada vá para a rede elétrica para poder ser usada por outros consumidores. Em troca desta economia gerada serão dados créditos futuros, porém as entidades que usam este benefício pagam impostos duplicados, na compra e na venda de energia.  Na Argentina, o governo de Maurício Macri está abrindo um modelo de inclusão de energia limpa: o país conta com um estado que usa 100% de energia solar e espera, a médio prazo, que 8% da matriz energética nacional seja baseada em fontes renováveis. Estes desafios legais e fiscais precisam ser superados, e sem dúvida os governos tem o poder de potencializar a adoção de energias renováveis ao resolver estes problemas.

Apesar dos desafios, algumas operadoras de data centers e de telecomunicações estão investindo na renovação de suas fontes de energia.  Este é o caso da Algar Tech, uma empresa brasileira que ganhou um prêmio do Data Center Dynamics por instalar um centro de computação em Minas Gerais com capacidade de geração de energia solar de 466MW/h por ano.  Outro empreendimento significativo foi o da Equinix, que projetou seu novo data center SP3 em São Paulo com tecnologias de “free cooling” indireto evaporativo da Liebert e painéis solares, as quais lhe permitem atingir uma PUE inferior a 1,35.  A Telefônica levou sua rede 3G para as bordas do Rio Amazonas utilizando energia solar para energizar suas estações de rádio base.  No Chile, a Google fechou um acordo para começar a abastecer seu data center com energia renovável a partir de 2017.  Outro caso importante a nível regional é o da Data Center Consultores, que desenvolveu em seu data center na Costa Rica uma nova unidade de negócios especializada na otimização energética e infraestrutura com soluções de auto geração.

Que percentual de energia em um data center pode vir de fontes renováveis?

Em termos práticos, um data center pode ter 100% de sua energia originária de fontes renováveis.  Um exemplo é a Apple, que o opera com toda a sua matriz energética renovável.  Infelizmente, nem todas as empresas do mundo tem a flexibilidade financeira da Apple para investir em energia limpa. Muitas vezes os data centers estão localizados em áreas urbanas onde não há espaço suficiente para captar a energia renovável necessária. Estima-se que, em média, sejam necessários 9,300 metros quadrados de painéis solares para gerar 1MW de energia, o que representa um espaço grande e caro nos centros urbanos. Uma tecnologia muito interessante que está em processo de desenvolvimento é a captação de energia solar através de membranas solares fotovoltaicas PV.  Estas lâminas cobertas de células solares são películas finas que ficam em cima de materiais de construção sem acabamento, nas fachadas ou até em cima das janelas de vidro; e que se destacam por sua flexibilidade, adaptabilidade e variedade de tamanhos. Dentre estas novas fontes de energia solar, existem diferentes tipos de formatos como as telhas fotovoltaicas planas (BIPV), os painéis de revestimento, as membranas impermeabilizantes fotovoltaicas (TEPV) e os PV flexíveis.

Outra forma eficiente de aumentar o percentual do data center energizado por fontes renováveis é obviamente diminuir o consumo de energia internamente.  Neste sentido, a adoção de tecnologias de climatização do tipo “free-cooling” indireto, é uma modalidade que está em processo de ampla difusão na América Latina.  O artigo técnico Energy Logic 2.0 da Network Power tem uma série de medidas que as empresas podem adotar para reduzir o consumo energético de seus data centers em até 70%.

Em termos económicos, o uso de energias limpas nos data centers também tem um impacto considerável.   De acordo com pesquisas do setor, realizadas pelo Global Energy Observatory, uma de médio porte consome cerca de 500 quilowatts-hora. Este consumo representa um custo de aproximadamente U$438.000 ao ano e emissões de CO2 ao redor de 2.190 toneladas.  Todavia, a implementação de estruturas que façam uso de energias renováveis, geraria uma economia de 15% no consumo total (cerca de U$65.700 ao ano) e uma redução de emissões de aproximadamente 328,5 toneladas de CO2.

Em resumo, os segmentos de data centers e de telecomunicações se encontram em expansão na América Latina, e os investimentos em energia verde também estão crescendo em um ritmo acelerado. Estes segmentos claramente têm tecnologias complementares e o retorno dos investimentos serão mais rápidos na região, onde o clima é um dos principais aliados.  É claro que o desenvolvimento de novas tecnologias de eficiência energética vem acompanhado de importantes desafios, e os avanços na regulamentação e incentivos ainda estão em processo de amadurecimento na América Latina, porém a maioria dos países está indo na direção certa.  Apesar de todos os desafios, a América Latina tem todos os ingredientes necessários para se tornar uma região líder em eficiência energética de infraestrutura de TI e de telecomunicações.

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